quarta-feira, 10 de julho de 2013

A BATALHA DA REFORMA POLÍTICA : COMO MATAR UM PLEBISCITO?



Muitos que defenderam as manifestações ocorridas em junho pelo país afora, que segundo alguns chegaram a dois milhões, trouxeram à pauta temas que atingem diretamente as massas que se localizam nos centros urbanos. Um dos temas recorrente foi o protesto contra a corrupção, o que por si só é uma coisa estranha, na medida em que não há, pelo menos que eu conheça nenhuma instituição ou indivíduo que defenda a corrupção. Mas a gritaria contra a corrupção significou um protesto veemente de certas camadas sobre o sistema político que elas mesmas alimentam.
Pelé, o Rei do Futebol e príncipe das declarações inúteis, já tinha dito, na década de 70, em meio à Ditadura, que “o povo não sabe votar”, frase essa muito digerida pelas elites que, desde a redemocratização, transformaram o processo eleitoral e legislativo, numa grande orgia publicitária em que o eleitor, seja ele pobre ou rico, informado ou não, vota em pessoas desqualificadas, oportunistas ou pura e simplesmente em ladrões.
É tradição de essas elites imputarem ao povo “burro” a deformação do sistema de representação, o que é um besteirol, na medida em que conheço muita gente de classe média, muito bem informada por sinal, que votou em “amigos”, por que alguém pediu e por outras dezenas de justificativas desavergonhadas. O sistema deformado leva a todos a votar em pessoas e não em ideias. E ai vale tudo.
Saúde, educação, transporte público e segurança pública não são tratados em assembleias de botequins, nem em reuniões de condomínios. Os recursos aplicados nessas áreas são DECIDIDOS nas instâncias de representação, ou seja, o destino do dinheiro é uma decisão política feita nas câmaras de vereadores, assembleias legislativas, Câmara Federal e Senado da República. Não adianta ficar cacarejando e nem grunhindo ou rangendo os dentes contra os “políticos”, pois é o sistema político que, numa democracia, decide as coisas. Ponto final.
É no sistema político que está a “trava” do desenvolvimento das relações econômicas, sociais e políticas e “destravar” isso seria um primeiro passo para colocar a sociedade, como um todo, mais em sintonia com a representação popular. E é bom lembrar o silêncio envergonhado dos presidentes da Câmara e do Senado durante as manifestações. Passado o furacão, todo mundo passou a ser a favor da Reforma Política, mesmo que durante quase dez anos tenham travado ela.

Aécio, Henrique, Agripino e Freire : unidos contra o Plebiscito
O DEM, o PSDB e o PPS a tríade oposicionista que range os dentes toda vez que o Planalto fala ou age, foi rápido em querer se tornar “porta-voz das ruas” e, de olho em 2014, fustigar o governo exigindo recursos que eles mesmos retiraram quando estavam no poder, basta lembrar a penúria das universidades públicas federais no período em estiverem governando o país, para entendermos a hipocrisia desse discurso. Mas faz parte da luta política e só é enganado quem quer.
Pois bem, o eixo central de uma Reforma Política seria a consulta popular via PLEBISCITO para que a população fosse chamada a opinar sobre as cinco propostas do Governo, que iam desde o tipo de sistema eleitoral até o fim do famigerado voto secreto no Congresso, uma afronta à representação popular e uma abertura à corrupção. Tudo muito bonitinho, mas tinha uma pedra no meio do caminho, chamada PDMB.
Todos os líderes dos partidos que apoiam o governo foram numa reunião e apoiaram a proposta do Plebiscito, à exceção do conservador Partido Popular (PP), que desde o início defendia o Referendo. Ocorre que 24 horas depois, a magia da politica fez com que o PMDB, que comanda a Câmara e o Senado, voltasse atrás e, lançando mão do “senhor tempo”, iniciasse o processo de assassinato da proposta, nas barbas do PT e com a ajuda nada companheira do PSB, que tá de olho nas eleições de 2014.
Contando com a ajuda do PIG, especialmente da Rede Globo, aquela que deve mais de R$ 1 bilhão só em direitos autorais e cujo processo de sonegação fiscal sumiu do Superior Tribunal de Justiça (STJ), começaram a fustigar o Plebiscito. Somaram-se a eles a tríade oposicionista (DEM-PSDB-PPS), o Exército do Final dos Tempos (PSTU), que não tem uma mosca eleita no Parlamento, mas é especialista em se somar às vozes da oposição, mesmo com seu discurso pseudo-revolucionário e um bem articulado exército de juristas e constitucionalistas, cujo tempo nas emissoras de televisão de repente aumentou desmesuradamente.
Ontem (9), finalmente, o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB), reuniu o chamado “colégio de líderes” da Câmara, e esta decretou a morte do Plebiscito. Ficaram isolados na defesa desse o PT, o PCdoB e o PDT. O motivo foi a “doença do tempo”, muito oportuna para quem o tempo não é o senhor da razão.
Amanhã (11), no Dia Nacional de Lutas, que ocorrerá em todo o país, ao lado das bandeiras das organizações sociais, sindicais e políticas, teremos que levantar a bandeira da defesa do Plebiscito, mas também seria uma boa hora para que os “acordados” não virem sonâmbulos e os “apartidários” não se tornem mofinos e deixem que as elites, mais uma vez, conduza a sociedade para o cercado que a mantém.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

SALÁRIOS DOS MÉDICOS : NEM SANTOS E NEM DEMÔNIOS!



Nesta quarta (3), o Instituto de Pesquisas Econômicas Avançadas (IPEA), uma fundação pública federal vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, publicou uma pesquisa que fala sobre as profissões saídas das universidades. De imediato a imprensa e os blogs, movidos à ignorância e a fuxicos, deitaram falação sobre os ganhos da carreira médica, tudo isso devido à polêmica do momento, que é a proposta do governo federal em trazer profissionais da área médica para atuarem em áreas carentes tanto de recursos como de médicos.
As corporações médicas foram às ruas para protestarem contra a proposta e aqui na província, nesta quarta (3) bloquearam a avenida Hermes da Fonseca, em frente ao açougue, digo, Hospital Walfredo Gurgel[1]. Dias antes, em 22 de junho, durante a posse da nova diretoria do Sindicato dos Médicos do RN (SINMED-RN), o senador Paulo Davim (PV), que não teve meio voto nas eleições, incitou a categoria a irem às ruas para pressionarem o governo para não “importarem” os médicos cubanos[2]. A Associação Médica do RN (AMRN) também se somou ao protesto.
Nada de estranho que as corporações se unam por suas demandas, e nada de assustador que, diante de uma proposta dessas, as mesmas se unam, tal quais as velhas corporações de ofício, na defesa dos seus membros. Quer melhor exemplo do que as poderosas corporações do Judiciário?
Mas, na realidade as noticias publicadas primam pela deformação da divulgação da pesquisa e pegam carona na postura das corporações médicas, que endureceram o discurso contra a presidente Dilma.
O que o estudo aborda, na realidade, é o impacto dos diferentes cursos universitários no desempenho trabalhista, e isso envolve o ganho salarial, a carga horária de trabalho dessas categorias, a taxa de ocupação e a taxa de cobertura previdenciária dessas diferentes categorias[3]. O estudo aborda 48 carreiras diferentes e dá, de forma aproximada um retrato de como as carreiras se comportam no mercado de trabalho.

Médicos : nem deuses e nem demônios.
No caso dos médicos, foco principal dos fuxicos realmente está em primeiro lugar no quesito salários e também no que se refere à taxa de “empregabilidade”, com 97,1% de possibilidade de sucesso no mercado. É ainda a quinta categoria mais bem coberta pela previdência, sendo superada apenas dos militares, serviços de segurança, bibliotecários e farmacêuticos. Em compensação a carga horária de trabalho dos médicos é uma das piores, chegando a 42 horas semanais, só superando sete outras carreiras[4].
O estudo serve para referenciar as diversas carreiras e as expectativas atuais para os que vão entrar nas universidades, mas não é a expressão definitiva do mercado de trabalho no Brasil, algo muito mais complexo e que é influenciado por vários fatores que vão desde a diversidade regional até mesmo as políticas governamentais.
O debate atual, que tem sido marcado por posturas reveladoras, acaba por fazer com que as disputas saiam do terreno da lógica e assumam ares de irracionalidade, alimentadas por uma mídia que é rápida em publicar notícias deformadas e lentas em investigar o que há por trás de cada fato.
Os médicos não podem ser satanizados, mas suas corporações devem ficar atentas ao papel que lhes cabe nesse processo. Reviver as velhas corporações de ofícios, com discursos eloquentes e uma roupagem do século XXI, pode não ser a tática mais adequada.
Quem viver verá.




[1] Veja: http://www.sinmedrn.org.br/noticias/vemprarua-pela-saude-contou-com-a-participacao-de-mais-de-mil-medicos/
[2] Veja: http://www.sinmedrn.org.br/noticias/solenidade-de-posse-foi-marcada-por-discursos-contra-a-importacao-de-medicos/
[3] Veja: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/radar/130703_radar27.pdf
[4] Engenheiros mecânicos e metalúrgicos, farmacêuticos, engenheiros, contadores, engenheiros civis, agrônomos e administradores.
Por Wellington Duarte. Tecnologia do Blogger.

Tema Original do WordPress. Adaptado por Lissiany Oliveira.